Faça o que eu digo, mas não o que eu faço

Eu não tenho o hábito de assistir novelas. Não que eu considere tal prática um pecado – como fazem alguns – mas simplesmente porque meu tempo é curto; assim, eu procuro dar prioridade a minha vida devocional, à família, à leitura, etc. Mas, de vez em quando, me permito ver uma coisa ou outra, porque considero uma via fácil para se obter informações sobre a vida social brasileira atual.

Pois bem. Ontem eu estava assistindo a novela das 8 (que começa às 9!) da Globo, “Caminho das Índias”, onde há personagens bem interessantes e populares, além de personagens, acentuadamente caricatos da exótica Índia. Uma das personagens, uma matriarca indiana, me fez refletir, mais uma vez, em como é lastimável a hipocrisia religiosa. A senhora da novela havia tido um “caso” quando jovem e engravidado de um homem que não era seu marido. Porém, casou-se grávida, sem que o marido o soubesse, e depois deixou que todos pensassem que o filho realmente era de seu marido. Porém, quando o neto dela se casou com uma mulher que, depois de alguns anos, revelou ter casado grávida de outro homem, a tal senhora aprovou a expulsou dela. Aliás, me falaram que a novela inteira a tal senhora esteve (extremamente religiosa e guardiã das tradições e costumes de seu povo) contra a moça casada com seu neto. Ou seja, ela condenava aquilo que ela mesma fez e escondeu por longos anos. Ela era adepta do ditado “faço o que eu digo, mas não o que eu faço”.

Eu sei que não parece muito religioso usar um exemplo de uma novela, mas, afinal, eu não sou uma pessoa muito religiosa mesmo! No entanto, o exemplo serve para ilustra meu ponto, o qual não apresenta nenhuma novidade: o cristianismo moderno está repleto de gente hipócrita, que comete pecados a torta e a direita “por baixo do pano”, mas que vive criticando aqueles que o cometem abertamente. Para que o fato de pecarem às escondidas lhes dá o direito de condenarem aqueles que cometem pecados às claras. Mas não importa se alguém peca no escuro ou à luz do dia; não importa se nenhuma pessoal viu ou se todo mundo está vendo – o importante é que Deus vê, como Ele o vê e o qual é o Seu parecer.

Um das frases mais clássicas de Jesus Cristo é “não julgueis para que não sejais julgados”. Mas os seguidores de Cristo se tornaram especialistas em não seguirem a Cristo naquilo que realmente importa. De fato, “seguidores de Cristo” é apenas modo de dizer, pois muitos hoje são apenas seguidores de pastores errantes, de igrejas, de doutrinas, de dinheiro, de fama, de poder, etc. Eles seguem rigidamente as tradições e a cultura de suas igrejas, mas não seguem o exemplo de Cristo. Eles amam suas doutrinas e seus pastores, mas não amam a Palavra de Cristo o suficiente para guardá-la (praticá-la). Eles condenam o pecado dos outros, mas se esquecem de seus próprios pecados.

Não que eu ache que não devamos condenar as práticas pecaminosas – não se trata disto. Eu mesmo estou fazendo aqui! Porém, faço isto com a plena consciência de que sei que sou cristão, mas também pecador. Eu cometo pecados. Eu faço coisas que não agradam a Deus. Por isso eu não julgo e não condeno aqueles que pecam. Primeiro, porque isso não cabe a mim. Eu não fui estabelecido como juiz de ninguém. Eu nem julgo a mim mesmo – Deus é quem me julga (para tomar a ideia emprestada de Paulo, o apóstolo). Eu sou tão pecado que nem tenho condições de julgar a mim mesmo, pois certamente eu iria minimizar a minha pena. Mas, como é Cristo quem me julga, eu vejo como é negro o meu pecado e como sou culpado. Mas não me desanimo, pois Cristo me julga, e sei que é melhor cair nas mãos Dele do que nas mãos do homem (para tomar a ideia emprestada de Davi, o rei). E sei que o Seu julgamento é justo. E sei que Ele condena meu pecado. Mas sei também que ao me condenar, Ele traz à minha experiência aquilo que Ele realizou no Calvário – a eficácia de Sua morte substitutiva. Ele morreu em meu lugar, assumiu a culpa por mim e foi condenado em meu lugar. E a Sua condenação, que era minha, me trouxe absolvição, justificação, redenção, santificação e glorificação.

Quando eu penso nisso, envergonho-me de cada vez que condenei o pecado de outro irmão, de cada vez que fui hipócrita em condenar aquilo – o pecado – que também cometo. Assim, renovo meu compromisso de continuar sem julgar aquele que pecou, que está pecando e que pecará. É claro, todo pecado é uma ofensa contra Deus, portanto, indesculpável. Por outro lado, o evangelho nos oferece perdão incondicional. Assim, a misericórdia triunfa sobre o castigo. E a humildade triunfa sobre a arrogância de se achar menos pecador do que os outros. E a esperança triunfa sobre o desespero de não conseguirmos nos livrar permanentemente do pecado nesta vida. E o amor vence a hipocrisia de condenar os outros enquanto somos tão pecadores como eles. E assim o cristianismo de Cristo, o cristianismo bíblico, faz com que o falar e o viver sejam uma só coisa na paradoxal experiência do pecador santificado.

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