Vivendo no “já, mas ainda não”
O teólogo George E. Ladd foi o primeiro a desenvolver a idéia, de modo sistemático e completo, sobre o “já, mas ainda não” do Reino de Deus. Ele afirma, com propriedade, que o Reino de Deus já está presente entre os homens, tendo se manifestado abertamente na presença do Rei Jesus Cristo há dois mil anos atrás, e ele continua se manifestando desde então, mas não em plenitude. Assim, o Reino de Deus, e seus efeitos, já estão presentes, mas ainda não em plenitude.
Isto explica e significa muita coisa. Explica, por exemplo, por que alguns são curados e outros não. E significa, entre outras coisas, que nós temos à nossa disposição os “poderes da era vindoura”, para citar o autor de Hebreus, mas que não temos nenhuma garantia de que eles sempre funcionarão a nosso favor. Portanto, nesse período de tempo, que vai desde a queda até o retorno visível e corpóreo de Jesus Cristo ao mundo, nós vivemos num estado de coisas onde desfrutamos de potencialidades que, pelas razões mais diversas, e algumas ainda indecifráveis a nós, nem sempre se tornam realidade.
Por que algumas pessoas são curadas, inclusive de doenças mortais, e outras não? Por que alguns cristãos passam a vida toda em sofrimento, enquanto outros não? Por que alguns estão sempre alcançando “graças”, bênçãos e soluções para seus problemas, enquanto outros não? Por que alguém ora e é atendido quando se trata de algo grave, mas tem a resposta negada quando pede algo bem simples? Por que alguns cristãos conseguem viver uma vida reta continuamente, enquanto outros lutam constantemente para vencer pequenos deslizes morais?
As respostas secundárias para essas questões envolvem diversas variáveis. No entanto, a resposta primária é a mesma: nós vivemos no já, mas ainda não do Reino de Deus. Nós vivemos a tensão entre o ideal de Deus para nós e a realidade de nossa natureza caída e de um mundo saturado pelo mal. Nós tentamos ser bons, mas nem sempre conseguimos. Nós tentamos amar a todos os outros, mas às vezes não conseguimos amar a mãe, o pai, o irmão, o filho, etc. Nós perdoamos ao inimigo, mas às vezes não conseguimos perdoar a filha que engravidou sem estar casada. E os exemplos dessa tensão se múltiplam exponencialmente.
Agora, não me entenda mal. Eu não estou querendo justificar qualquer tipo de erro ou pecado. Não tenho uma atitude de aprovação para os meus ou os erros dos outros. Não tento justificar minhas falhas e pecados com base na teologia do “já, mais ainda não”. Porém, não podemos ignorá-la como um fato da nossa realidade. Pois ignorar que vivemos essa tensão, obviamente, tem trazido grandes prejuízos para os cristãos, tanto individual como coletivamente.
Por exemplo, muitos cristãos se afundam em culpa por não conseguirem cumprir as demandas de Cristo (ou de suas igrejas). Eles se esforçam para conformar-se ao padrão moral da Bíblia, mas não conseguem. O resultado é que muitos desistem de seguir a Cristo ou passam a viver hipocritamente: na vida privada ou afastada da comunidade cristã, eles vivem de forma totalmente mundana; já no meio cristão, eles simulam que são as pessoas mais santas e retas que existem. No entanto, as duas atitudes são desnecessárias. Não precisamos fingir santidade nem precisamos mergulhar nas profundezas do pecado. Há graça abundante para vivermos uma vida que agrada a Deus, sem esforço, porém, não com ausência total e permanente de erros, pecado, falhas, etc.
Nós jamais deixaremos de pecar, falhar e errar enquanto vivermos antes da vinda plena do Reino de Deus. Até lá, podemos viver em graça, pois esta significa, primeiramente, perdão; depois, significa força para vivermos uma vida que agrada a Deus. Significa também que quando falhamos, em qualquer área, Deus continua nos amando. Que mesmo quando o pecado é mais forte do que nós, Deus não desiste da gente. Ele não nos abandona. Ele não deixa de nos amar e aceitar. Pois Ele sabe, melhor do que nós, o que é a natureza humana, de modo que Ele não precisa que ninguém Lhe dê “testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia [e sabe] o que havia [e o que há] no homem” (João 2,25).