Início > Diversos > O Que Significa Ser Salvo

O Que Significa Ser Salvo

 

É com certa freqüência que encontro pessoas questionando a “lógica” da salvação anunciada pelos evangelicais. Elas não conseguem admitir que só os evangelicais sejam salvos ou que exista tal possibilidade de uns irem para o céu e outros não. De fato, alguns até duvidam que haja alguma coisa após a morte e muito menos que exista um céu ou um inferno. Além disso, é duro engolir alguém que lhe diz que você está “perdido” e ele não.

Bem, eu creio que essa coisa toda se torna bastante complicada por duas razões: (1ª) a linguagem usada pelos cristãos, especialmente pelos evangelicais, nem sempre corresponde àquilo que realmente é ensinado nas Escrituras cristãs; e (2ª) a atitude extremamente agressiva e elitista de muitos cristãos normalmente gera uma rejeição à primeira vista, o que impede a compreensão acurada daquilo que os escritores divinamente inspirados queriam dizer com “ser salvo”.

Eu sou um cristão que a aceita as escrituras judacio-cristãs como sendo divinamente inspiradas e, portanto, não façao questão de usar os conceitos e o vocabulário evangelicais da atualidade ou da tradição cristã. Eu estou preocupado em entender o que a BÍBLIA ensina e como ela o ensina, mesmo que isso vá contra o que eu penso ou aquilo que eu prefiro. Esse exercício de pensar, falar e explicar as coisas de maneira escriturística, certamente, não é fácil, mas é a única solução sensata em meio à confusão religiosa que reina entre os cristãos. Então, vamos pensar tomando como base as escrituras cristãs sobre o significado de ser salvo.

O que significa ser salvo, afinal de contas?

Eu creio no céu, mas não com o imaginário infantil que projeta um lugar de algodão doce com anjinhos semi-nus tocando harpa. Eu creio, sim, que há um lugar tão fantástico que faz a ficção científica parecer brincadeira de criança. Porém, visto que a única maneira de a mente humana concebê-lo é através de figuras de linguagem, Deus explicou esse lugar em termos que até uma criança pudesse assimilá-lo. E, embora a linguagem figurada das escrituras ofenda as mentes mais científicas, nem por isso deixa de ser uma expressão confiável da realidade. Eu também creio que há um lugar denominado ‘inferno’, mas não como um lugar onde o diabo comanda uma festa que nunca acaba e cheio de promiscuidade, mas sim como um estado e um lugar de completa e eterna ausência de Deus.

Contudo, eu entendo que a ‘salvação’ não pode ser resumida a ir ou não para um dado lugar. Jesus não limitou o significado de ser salvo a ir para céu ou não ir para o inferno – nem o fizeram os apóstolos e escritores do Novo Testamento. O conceito escriturístico de salvação vai muito além de simplesmente livrar-se ou não de um sofrimento eterno. Isso se vê claramente, por exemplo, no fato de Jesus usar bem mais as expressões “vida eterna” e “Reino de Deus” do que “salvação”. A variedade de palavras e expressões para descrever o mesmo benefício – que não se limita a estas citadas há pouco – também testifica de que não podemos restringir a idéia de salvação a ir para um lugar ou não.

Entre as muitas expressões e diversos elementos envolvendo a questão se ser salvo, há uma bem específica que ajuda a explicar melhor o que isso realmente significa. Encontra-se em uma declaração de Jesus sobre a vida eterna. Ele diz: “E a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, que és o único Deus verdadeiro; e conheçam também Jesus Cristo, que enviaste ao mundo” (João 17,3).

Observe que o significado de ter vida eterna ou ser salvo é conhecer a Deus o Pai e a Jesus Cristo. Porém, tal conhecimento não é uma mera uma atividade intelectual. Na Bíblia, a palavra conhecer muitas vezes é usada para designar a relação íntima de um casal. E esse é o sentido das palavras de Jesus, embora não estejam envolvidos, logicamente, os aspectos românticos ou sexuais da relação íntima. Mas a idéia de conhecer intimamente, ou seja, por meio de uma estreita ligação de afeição e confiança permanece, e explica o que significa ser salvo.

Ser salvo, portanto, é conhecer a Deus de maneira íntima; é manter uma relação de amizade com Deus repleta de afeição e de confiança. Preste atenção às palavras ‘amizade’, ‘afeição’ e ‘confiança’. Na linguagem teológica, ‘ter amizade com Deus’ significa ser aceito, justificado ou salvo por Deus. ‘Afeição’ é amar a Deus sobre todas as coisas e com tudo o que somos e temos. ‘Confiança’ é outra palavra para ‘ter fé’ em Deus.

Ser salvo, portanto, na concepção de Jesus, não é pertencer a um grupo religioso cristão – por melhor que ele seja! Também não é meramente realizar atividades religiosas como orar, ler a Bíblia ou “ir ao culto”. Ser salvo é vivenciar conscientemente uma relação de afeição e confiança com Deus. Salvação é um relacionamento eterno com Deus e, como todo relacionamento, deve existir uma troca, um dar e receber. Nessa relação com Deus, Ele nos dá vida plena. Nele temos vida, paz, alegria, bondade, etc. – tudo com a qualidade do que é eterno e puro e bom. Ele nos dá, entre outras coisas, amor incondicional, força para seguirmos na jornada dessa vida, consolo na dor e no sofrimento, conforto na adversidade, etc., e por fim uma vida eterna em um mundo além da imaginação!

E nós? Qual é a nossa parte nessa relação? Nossa parte é confiar e amar. Precisamos confiar que Ele é quem diz ser e que fará por nós tudo o que prometeu fazer. Precisamos confiar em Seus ensinamentos e adotá-los como nossos princípios e valores. Precisamos confiar Nele o bastante para abraçarmos Seu estilo de vida como o nosso. Precisamos amá-lo como um servo ama ao seu bondoso senhor, como um discípulo ama ao seu mestre, como um filho ama ao seu pai. Precisamos amá-lo a ponto de aderir à Sua causa, de segui-lo em Sua contracultura, de crermos no inimaginável e no impossível.

Há muitas maneiras de descrever o que significa ser salvo; o que expus acima é apenas uma dessas maneiras. Mas espero que você tenha entendido que não se trata de pertencer a uma religião ou de cumprir certos rituais ou de seguir certas tradições. Trata-se pura e simplesmente de cultivar, consciente e resolutamente, uma relação de amor e fé com Jesus, o Cristo. E uma vez que passamos a amar e seguir a Jesus, nós somos unidos a Ele de maneira irreparável. E assim, uma vez amalgamados ao Cristo ressurreto, a vida só pode ser eterna – não somente em duração, mas principalmente em qualidade. E tal amor, diferente daquele proposto por Vinícius de Morais, não é “eterno enquanto dure”, mas durará porque é eterno.

 

CategoriasDiversos
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.