Doutrinação: Acadêmica ou Religiosa?
Uma das críticas mais comuns que se faz no meio acadêmico contra o cristianismo, em suas mais variadas formas, é que nele há muita doutrinação, ou seja, ali o participante não pode discutir, mas tem que aceitar as coisas do jeito como são, pois, afinal de contas, a “fé cristã é ortodoxa e, portanto, não pode ser questionada – deve ser obedecida sem questionamentos” – é o que geralmente se diz.
Certamente existe um aspecto ortodoxo nos ensinamentos cristãos. Porém, é preciso diferenciar entre ortodoxia escriturística e ortodoxia eclesiástica. A ortodoxia escriturística (a doutrina ensinada na Bíblia), realmente não pode ser questionada, pois entendemos que se trata de revelação divina. Assim, o cristianismo deixaria de ser cristianismo se não houvesse essa ortodoxia.
Porém, essa ortodoxia compreende apenas um corpo limitado de verdades ou doutrinas que têm um caráter imperativas para o cristão. Diz respeito apenas aos conceitos fundamentais da fé cristã como, por exemplo, a crença em um Deus Criador, na criação do homem à imagem e semelhança de Deus, na divindade e humanidade de Jesus Cristo, etc. Portanto, o cristianismo não pode ser considerado como a confraria dasqueles que seguem os ensinamentos de Cristo e (de seus apóstolos) sem uma posição ortodoxa, dogmática, escriturística a respeito dessese de outros assuntos.
No entanto, a ortodoxia escriturística é muito diferente da ortodoxia eclesiástica. Esta última não tem como base as escrituras cristãs, mas sim as tradições, interpretações e a autoridade das igrejas. Deste modo, enquanto o cristão deve seguir as doutrinas bíblicas, ele não está obrigado, em hipótese alguma, a aceitar, muito menos sem questionar, a ortodoxia eclesiástica. As tradições das igrejas não têm a mesma autoridade que os ensinamentos bíblicos. A autoridade dos líderes das igrejas não possui o mesmo peso que a autoridade das Escrituras cristãs. As interpretações das igrejas a respeito da Bíblia não possuem autoridade divina; portanto, não representam, necessariamente, aquilo que a Revelação nos diz. É possível que, muitas vezes, as igrejas digam o mesmo que a Bíblia, mas a realidade é que isso não acontece a respeito de tudo que as igrejas dizem. Assim, é necessário questionar, sempre, aquilo que as igrejas dizem.
Tendo explicado o anterior, eu não vejo muita diferença entre o que acontece na maioria das universidades e faculdades brasileiras e o que se passa nas igrejas cristãs. Em ambos os espaços prevalece uma atitude consideravelmente doutrinadora. É claro, no meio acadêmico, geralmente, apregoa-se que não há doutrinação, mas isso não passa de um discurso vazio. Na academia nos dizem que podemos questionar aos professores, mas quando questionamos, sofremos algum tipo de sanção – assim como acontece nas igrejas. E, enquanto nas igrejas somos doutrinados para cremos no que a Bíblia diz e, na maioria dos casos, também no que as igrejas dizem, na academia somos doutrinados a não crermos em Deus ou na Bíblia e muito menos nas igrejas!
É uma grande falácia dizer que devemos levar em consideração as diferenças, que temos que respeitar as crenças dos outros e que não há uma “verdade absoluta”. Pois, na maioria das vezes, isso só se aplica às religiões afro-brasileiras ou orientais. Essa tolerância parece não se aplicar ao cristianismo, que é massacrado brutalmente por uma avalanche de informações que nos doutrinam contra o cristianismo. O que “a igreja” diz, segundo a Academia, tem que ser relativizado, mas não o que a Academia diz! Isso é doutrinação ou não?
Eu estou de acordo com grande parte das acusações que se fazem contra as igrejas cristãs. Eu mesmo denuncio uma boa parte de nossos erros! Eu também concordo que as igrejas não devem tentar controlar a sociedade, mas deve respeitar aqueles que não são cristãos (ou que são, mas de um tipo diferente). Porém, aqueles que não são cristãos também devem respeitar-nos. Eles precisam reconhecer que os cristãos também têm direitos como todos os outros cidadãos. Nós não podemos obrigar ninguém a viver de acordo com os princípios cristãos; entretanto, ninguém deveria tentar nos convencer a viver de acordo com princípios não cristãos! No entanto, toda semana eu escuto alguém tentando convencer-me de que acreditar na Bíblia é crer em mitos, é não ser racional, é ser alienado, iludido, etc.
Assim, digam o que quiserem, só não tentem me enganar: na Academia há tanta doutrinação quando nas igrejas! Mas, se eu puder escolher, eu prefiro a doutrinação das igrejas, pois ali, pelo menos, ela não é disfarçada. A verdade é que não me incomodo tanto com a doutrinação acadêmica, pois ela não me afeta, mas incomodo-me sim com a falácia de que ela não acontece.
Pois bem. Que doutrinem! Se nas igrejas eu não me sinto na obrigação de aceitar aquilo que não procede da Revelação escrita, quanto mais na Academia! Só não tentem me convencer de que não há doutrinação. E havendo doutrinação tanto nas igrejas quanto na Academia, deixem que as pessoas escolham a sua preferida. Eu escolho nenhuma das duas! Prefiro a doutrina de Cristo: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.