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Sobre Pássaros, Gaiolas e A Necessidade de Transcender

Eu até concordo com Rubem Alves quando ele diz que Deus nos deu asas, mas a religião nos deu gaiolas. No entanto, eu não consigo deixar de pensar no seguinte: Quem foi que criou a religião e suas gaiolas? E como nós fomos parar dentro delas?

Eu faço esses questionamentos porque um ser alado como um pássaro, por exemplo, por sua própria natureza, é uma criatura livre, e não deve viver engaiolado – sua natureza não condiz com nenhuma forma de cativeiro. Até mesmo quando constrói a sua casa em buracos e cavernas, o pássaro sempre tem uma passagem por onde possa entrar e sair livremente. Quando, por acidente, fica preso em algum lugar, ele voa desesperadamente tentando escapar, algumas vezes de maneira tão frenética que acaba ferindo a si mesmo, tentando forçar uma passagem através dos obstáculos que impedem sua fuga.

Para que um pássaro seja engaiolado, primeiro é preciso capturá-lo. Arma-se uma arapuca, uma armadilha com algum charme – por vezes seu alimento preferido – e o desavisado é atraído à armadilha. O fato é que o coitado é apanhado, logicamente contra sua própria vontade e, assim, posto em uma vitrine de arames para exposição pública ou privada, à exploração de seus dotes musicais, que se transformam em lamentos ou gemidos em um cárcere cruel.

Contudo, quando um pássaro é capturado ainda filhote, vindo a ser alimentado na mão pelo seu captor, e condicionado a depender dele para sua própria sobrevivência, a gaiola se torna, inevitavelmente, um jazigo muito acolhedor. De fato, alguns pássaros ficam tão condicionados a essa realidade que mesmo com a portinhola aberta eles não conseguem sair da gaiola. E mesmo quando alguns arriscam uma escapadela, logo retornam em busca de alimento e abrigo.

Se a analogia entre pássaros, gaiolas e religião estiver correta, e considerando que o Criador não é artesão de gaiolas, só posso deduzir que nós mesmos somos os infelizes inventores de nossas próprias prisões. A religião é criação nossa e seus ditames são as gaiolas que nos limitam. Nós somos pássaros capturados por nossas próprias armadilhas, por todos esses constructos sociais que tornam o ser humano cativo da necessidade de pertencer, ser aceito, amado, ouvido, valorizado e compreendido – valores humanos reais e essenciais que a religião explora com maestria para nos aliciar ao seu viveiro.

Nós queremos tanto transcender a fugacidade de nossa existência que acreditamos apaixonadamente em qualquer promessa de alívio imediato, de cura sem precisarmos ir ao médico ou tomar remédios, ou de que alguém nos ouvirá sem precisarmos pagar para que nos escutem. Porém, tais anseios lícitos, muitas vezes, se tornam precisamente os chamarizes de nossa própria ruína.

Mesmo com a adesão sendo voluntária (você pertence a uma religião se quiser), e ainda que as portas estejam sempre abertas para qualquer um entrar ou sair, muitos preferem permanecer engaiolados, embora não estejam de pleno acordo com as doutrinas e políticas de sua religião; afinal de contas, eles acreditam que ali é mais seguro e tem melhores promessas do que o mundo hostil fora da gaiola.

Embora eu seja um cristão convicto, não gosto de religião, e espero nunca precisar dela para transcender minha vida costumeira. Na maioria das vezes fico satisfeito em conversar informalmente com Deus enquanto folheio com respeito e prazer as páginas da minha querida Bíblia (é claro, acompanhado por uma Coca-Cola bem gelada). Também gosto muito mais das conversas descontraídas com gente de verdade que busca um relacionamento verdadeiro com Jesus Cristo do que alguns serviços religiosos enfadanhos e estéreis.

Não irei negar que nas gaiolas religiosas existem coisas que me atraem. Também não posso garantir que jamais entrarei em uma delas. Porém, se ou quando o fizer, deixarei a porta bem aberta; e se alguém tentar fechá-la, eu voarei para longe o mais rápido que puder. Pois eu prefiro a floresta desconhecida e perigosa de uma experiência livre, onde eu possa voar sem culpa pela extensão que o Criador me oferece, a uma bela e segura prisão dourada. Assim, recordando-me de que ainda tenho asas, escolho continuar afirmando com o salmista bíblico:

Como o passarinho, nós escapamos da armadilha do caçador.

A armadilha quebrou, e ficamos livres.

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  1. ricardo
    22/07/2008 às 8:41 pm | #1

    AVIDA E LINDA COMO OS PASSAROS SOU UM VERDADEIRO AMANTE DOS PASSAROS DE DEUS OBRIGADO

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