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No Deserto

João Batista pareceu pregando no deserto (Mateus 3.1-13). A sua mensagem era sobre o arrependimento necessário diante da iminente vinda do Reino de Deus na pessoa do Rei Jesus. Por que João começou pregando no deserto e não na cidade? E o que isso tem a ver conosco, hoje?

Nós devemos primeiramente lembrar que quando João apareceu, o ofício profético, na visão dos judeus, havia cessado. Mas não na visão de Deus! Como Ele sempre faz, Deus desafiou a visão tradição fazendo algo que não estava nos planos dos religiosos institucionais. E ainda hoje Ele continua fazendo assim – quando menos se espera, Ele nos surpreende com algo que achávamos que Ele não faria mais! Deus fez algo inesperado e isto, primeiramente, atraiu multidões para ver este profeta. Gerações inteiras jamais haviam visto um verdadeiro profeta e o povo da Judéia estava disposto a ir onde quer que fosse para ver aquele novo profeta no velho estilo do Antigo Testamento.

Todo o estilo de vida de João era extraordinário, provocador, radical. Sua localização, suas vestes e sua dieta eram radicais e sugeriam um estilo de vida que desafiava os valores da sociedade de então. Da mesma maneira, a pregação de hoje deve ser profética e desafiar os princípios e valores religiosos e humanistas de nossos dias.

A localização de João – no deserto – proporcionou um novo Êxodo para os judeus. Assim como os hebreus foram ao deserto para ouvir a vontade de Deus, nos dias de João, eles também deveriam sair ao deserto para ouvir a Deus mais uma vez. Aqueles que quisessem ouvir o precursor do Messias e encontrar-se com Ele e ouvir a Sua voz, deveriam deixar seu lugar de conforto e entretenimento na cidade e ir ao deserto apenas por causa do Senhor e de Sua Palavra. E nós hoje também precisamos de um novo êxodo, uma nova reforma, que nos tire do meio evangelical com todos os seus grandes e pomposos recursos e nos leve ao verdadeiro encontro do Senhor e de Sua Palavra.

Os profetas de Israel haviam pregado que haveria um novo êxodo ao deserto (Os 2.14-15; Is 40.3) onde Deus falaria com o povo e isto estava acontecendo nos dias de João. Para os judeus antenados com as profecias e com sua história profética, o deserto era o lugar adequado para encontrar um profeta falando em nome de Deus e também o Messias. É por isso que vemos freqüentes referências nos Evangelhos sobre João, o Messias e os discípulos ministrando no deserto (Mt 3.3 com Mc 1.3; Lc 3.4; Jo 1.23; Is 40.3; Mt 24.26; At 21.38). O deserto era o lugar onde se podia cumprir sua missão sem distrações e onde era fácil filtrar quem estava realmente interessado no Senhor e em Sua Palavra, pois ali não havia o glamour da religião.

Você continuaria amando, buscando, servindo e obedecendo ao Senhor sem os ‘ministérios de adoração’ e seus CDs/DVDs e outros produtos? Você continuaria feliz em adorar ao Senhor sem instrumentos ou dançarinos? Você estaria satisfeito em participar de uma reunião de adoração onde houvesse somente oração e pregação? Você desfrutaria de uma vida cristã sem congressos, conferências, encontros, células, seminários, ’shows gospel’, grandes pregadores, templos, exposições, livrarias evangélicas e toda a parafernália evangelical que temos hoje em dia? Você estaria disposto a pregar em um lugar sem as comodidades de nossos templos modernos? A sua resposta honesta a estas questões revelará bastante sobre o que há de verdadeiro em seu coração!

O deserto não somente era o lugar ideal para João cumprir sua missão – um lugar sem comodismo, sem atrativos, sem apelação, sem confortos ou grandes nomes, onde os curiosos não duravam muito tempo – mas também era o lugar natural para aqueles que fugiam de uma sociedade hostil (Hb 11.38; Ap 12.6; 1 Rs 17.2-6; 2 Rs 6.1-2). Ali no deserto, mesmo sem os confortos do templo, João podia fazer coisas necessárias e legítimas, mas que não eram aprovadas pelos líderes estabelecidos pela tradição como, por exemplo, batizar aqueles que se arrependiam de seus pecados. Assim, o deserto representava também o preço que o profeta deveria pagar para ministrar em nome de Deus. Pois, ali no deserto, ele estava excluído dos valores e confortos da sociedade, excluído dos símbolos religiosos e até mesmo das necessidades mais básicas. Isso nos ensina que se quisermos realmente falar por Deus em nossa geração, nós precisamos estar dispostos a nos despirmos e desistirmos do convencional e do estabelecido quando Deus assim o ordenar ou administrar.

O Templo e a Sinagoga eram s lugares certos para adorar, orar, aprender e ensinar a Palavra de Deus naqueles dias. Ali estavam os sacerdotes, escribas e religiosos. Ali estavam os representantes oficiais da religião, os recursos e as regras. Porém, não era ali que estava a Palavra de Deus! Ela estava no deserto com João! Hoje em dia, também, nós não podemos ouvir a Palavra de Deus em sua pureza a menos que estejamos longe do sistema evangelical corrompido de nossos dias.

O deserto não é um lugar físico; não significa necessariamente sair fisicamente das denominações ou grupos evangelicais; não significa necessariamente deixar de se reunir em um templo. Ir ao deserto é uma questão principalmente do coração; é uma separação espiritual – de princípios, valores e práticas. Porém, às vezes, também é necessário separar-se fisicamente do lugar onde a corrupção religiosa impera e sair para um novo lugar onde a Palavra de Deus seja levada a sério. Isso, é claro, dependerá do arranjo de Deus e é uma questão individual.

Você já saiu ao deserto? Você já abriu mão em seu coração das facilidades de um sistema religioso que se afasta mais e mais da Palavra de Deus – o evangelicalismo moderno? Você está disposto a encontrar-se com o Senhor e receber a Sua Palavra no deserto? Você está disposto a ser um servo do Senhor no deserto, sem as facilidades do mundo religioso evangelical, se assim o Senhor lhe dirigir?

Eu creio que estas são questões sérias que precisam ser consideradas por cada um de nós. Que o Senhor tem misericórdia de nós e nos dê a graça necessária para respondermos à Sua voz.

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