Fora da Caixinha, Finalmente!
Obs.: O texto abaixo foi escrito para e após um pastor tentar me enquadrar em suas (falsas) expectativas sobre como eu deveria me vestir e pregar em sua igreja. Eu já estava cheio de coisas afins e resolvi ‘desabafar’. O texto está cru, não foi revisado e em breve será ampliado.
… Eu queria agora tecer alguns pensamentos sobre essa caixinha que me irrita profundamente e cada vez mais. Você já conhece essa caixinha, não?
Sim, você sabe que existe uma caixinha que quer me conformar ao seu formato, ao seu espaço e à sua cultura própria. Ela quer me prender, conter, limitar, impedir, espremer, tolher. Ele quer que eu a defenda, que lhe honre, que lhe dê a primazia, que viva só para ela e por meio dela. Na verdade, eu estive preso dentro dela por muito tempo, uma boa parte dos meus 38 anos. E sempre que eu quis sair de dentro dela, eu era empurrado de volta e, então, me conformava. Até que entendi de uma vez por todas que foi para a liberdade que Cristo me libertou (Gálatas 5.1).
Você sabe que essa caixinha é religiosa, cristã, evangélica, pentecostal, neopentecostal, reformada, arminiana, batista, presbiteriana e todos os outros nomes que fazem parte desse bicho de muitas cabeças que eu chamo evangelicalismo. Essa caixinha, de fato, é o próprio evangelicalismo em suas múltiplas e desconexas ramificações e expressões.
O evangelicalismo não é bíblico e não é decente (por favor, não o confunda com ’ser biblicamente evangélico’ ou cristão). Ele é castrador, metido à besta, hipócrita e autoritário. Ele se acha na autoridade de me dizer quem eu devo ser, o que devo fazer e como devo me vestir – ignorando o que a Bíblia já me diz! Seus proponentes insistem em dar-me uma lista de regras e não param de tentar enquadrar-me no que eles chamam de “evangélico” (leia-se evangelical) e de “pastor” (leia-se sacerdote). Agora eu insisto em dizer não a tais imposições de forma e tradição! Eu não vou me conformar àquilo que Jesus Cristo jamais exigiu ou exigiria de mim. E se Ele, e somente Ele, o fizesse, eu obedeceria, sem relutar, mas Ele não o fez, não o faz e não o fará.
O evangelicalismo desenvolveu uma cultura própria, confundiu-a com o evangelho de Jesus Cristo e passou a ensiná-la como se as suas tradições fossem mais importantes do que a Revelação escrita de Deus. Ele gerou um sistema de abordagem bíblica altamente hipócrita, dualista, com doutrinas que se aplicam a uns e a outros não. Ele desenvolveu um sistema onde quem se dá bem é quem se adapta à sua cultura – quem insiste em seguir estritamente o exemplo de Jesus é censurado, perseguido, difamado, rotulado de herege, de rebelde… E daí pra pior! Mas quem disse que o evangelicalismo tem a palavra final em minha vida (ou deveria ter na sua)? Quem disse que essa caixinha sem graça e estúpida pode dizer o que eu devo fazer e como devo viver a minha vida cristã? Quem é ela para impor seus grilhões em quem já foi redimido por Cristo?
Nem todos os evangélicos autênticos estão conformados a essa caixinha, graças a Deus! Mas, infelizmente, tem muita gente de Deus, de carne e osso, ali dentro. E, infelizmente, também, já estão a ponto de perder o rumo da fé e a alegria de viver para Cristo. E isso porque o efeito de conformação dessa caixinha é muito grande, a ponto de convencer os filhos de Deus que as únicas maneiras de se viver e expressar a fé, especialmente em nível comunitário, é seguindo as regras das estruturas fossilizadas existentes no evangelicalismo. E ai daquele que ousar pensar, fazer, querer ou sentir diferente!
Certas pessoas têm vivido tanto tempo dentro da caixinha que podem jurar de pé junto que tudo o que há ali é bíblico. O problema é tão sério que muitos dão suas vidas para defender tradições e costumes evangelicais que até mesmo contradizem os ensinamentos mais claros das Escrituras – que eles juram seguir! Passar muito tempo dentro de uma caixinha pode realmente limitar bastante a nossa visão, se é que já não a cegou…
Eu fico impressionado também com o poder que essa caixinha infame tem de fazer com que as pessoas se tornem dependentes dela. Essa dependência é primeiramente religiosa e é tão forte que muitos chegam a pensar que, se saírem dessa ou daquela igreja evangelical, elas perderão a sua “salvação”! Eu já ouvi dezenas de evangelicais dizendo que se um dia eles saírem de suas igrejas eles voltarão para o “mundo…” Eu não entendo! Por acaso eles estavam em Marte antes de serem evangelicais? E, onde eles têm colocado sua fé, em Cristo ou na Igreja? Deveria ser em Cristo, pois pertencer a uma religião ou igreja cristã não garante a ninguém um ticket para o céu!
Há também uma dependência social. A maioria dos crentes viveu a vida inteira em uma igreja evangelical e, apesar de discordarem de muitas coisas ali, e mesmo depois de muitas frustrações, não conseguem se desvincular. Por quê? Porque toda a vida social que conseguiram construir está ali. De fato, eu sei por experiência própria como é duro deixar amigos queridos para trás; porém, muitas vezes é a única solução.
Você sabe que na caixinha do evangelicalismo quem pensa é herege, quem discorda é rebelde e quem questiona o status quo arruma uma confusão daquelas. Eles colocam uma coleira tão apertada em nossas vidas que nem conseguimos falar o que pensamos. E é daquelas coleiras que dão choque se insistirmos com isso. E se teimarmos, eles dizem que nossa resistência é “coisa do diabo”. Assim, quem conhece menos a Bíblia e/ou teme perder o seu círculo de amizades, não encontra outra saída se não recuar, se acomodar, desistir de ir contra tal sistema e, dessa maneira, acaba se tornando um zumbi da fé (pois não há vida dentro da caixinha, apenas uma encenação de vida, vida maquiada para aparecer bem na foto).
Eu não quero viver dentro dessa caixinha, pois Cristo me libertou para a liberdade. Eu quero ser tudo o que a graça de Deus me permite ser e não o que os evangelicais querem que eu seja. Eu não quero e não vou me conformar a um padrão de pensar, de vestir ou de agir só para agradar a quem deveria estar mais preocupado em agradar a Deus. Eu quero me livrar de vez dessa caixinha insípida, para então almejar ser um cristão livre. Sim, eu quero ser livre para expressar a minha fé como as Escrituras me ensinam que devo fazer e não como a caixinha diz que tem que ser.
Eu não quero que essa caixinha me molde. Eu não quero pensar como a caixinha pensa, eu quero pensar como Cristo pensa. Eu não quero me parecer com a caixinha, mas com Cristo. Eu não quero sentir como a caixinha, mas como Cristo. Eu não quero agir como a caixinha, mas como Cristo.
Eu espero, enfim, que você e muitos outros cristãos acordem enquanto é tempo e se libertem dessa caixinha que está fadada a se tornar cada vez pior. Há vida fora dessa caixinha – vida real, divinamente humana.
Amor, fé e esperança para você e os seus!