A Importância da Igreja
Freqüentemente as pessoas me perguntam por que eu enfatizo tanto a igreja. Elas questionam, “se a igreja não salva, por que toda essa preocupação com ela?”
Mas, será que, pelo fato da igreja em si mesma não ser o meio de salvação, ela não tem importância nos planos de Deus? Será que falar e escrever sobre a igreja é algo desnecessário? Será que é melhor deixarmos esse tema de lado e tratarmos de outros assuntos ‘mais importante’?
Eu devo dizer que qualquer pessoa que pense dessa maneira não compreende nenhum pouco a natureza da Igreja de Deus e seu papel nos planos de Deus. Eu penso que não somente eu, mas também todo cristão interessado no que interessa a Cristo deveria se preocupar e muito, ainda que não exclusivamente, com a Igreja e a sua atual condição. Eu creio que todo cristão deve se importar com a doutrina e a prática de sua igreja local e tomar as devidas providências para que elas se encontrem de acordo com a Palavra de Deus.
Deixe-me dar algumas razões por que devemos nos preocupar com a Igreja e sua atual condição:
1. Importar-se seriamente com a Igreja é seguir o exemplo de Cristo.
Jesus ensinou claramente que devemos segui-lo (Lucas 9.23-25; João 12.26). Paulo disse que nós devemos imitá-lo como ele imitava a Cristo (1 Coríntios 11.1). Pedro afirma que nós fomos chamados para seguirmos os passos de Cristo (imitá-lo – 1 Pedro 2.21). E qual foi o exemplo que Jesus nos deixou quanto à Igreja?
João 2:12-17 relata a ocasião quando Jesus fez um azorrague e expulsou todos os que estavam comercializando no templo judaico, a Casa de Deus na Velha Aliança. Ao ver Jesus fazer isso, os discípulos se lembraram de uma profecia a respeito do Messias que se encontra em Salmos 69.9, que é citada em João como “O zelo da tua casa me consumirá”.
O exemplo de Jesus aqui é muito claro. Ele não conseguiu ver a Casa de Seu Pai funcionando de qualquer maneira. Ele teve que levantar-se contra aquilo que estava errado. Ele se importou com a condição do templo de Deus e um zelo consumidor tomou conta Dele e o levou a agir com tanta força.
Ora, a Casa de Deus na Nova Aliança é a Igreja, a qual é uma “superior aliança instituída com base em superiores promessas” (Hebreus 8.6). Se o Senhor foi consumido de zelo pela Casa (terrena) do Pai, que era apenas sombra do verdadeiro tabernáculo celestial, o que dizer da realidade em Cristo de Sua verdadeira morada nesta era e para todo o sempre, ou seja, a Igreja?
Sim, Cristo tem maior zelo pela Igreja, a Casa espiritual de Deus, do que Ele teve pelo templo material que era sombra da realidade vindoura quando Ele derramaria Seu Espírito para formar uma nova casa, não construída por mãos humanas, formada de pedras vivas, a habitação de Deus no Espírito (1 Pedro 2.5; Efésios 2.22). Veja o que Paulo diz sobre quem destruir o santuário de Deus:
“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (1 Coríntios 3.16-17).
Nós também vemos este legado do zelo de Cristo pela Igreja em Efésios 5.22-27. Ali aprendemos que Ele é o salvador do corpo, que Ele ama a Cristo e se entregou por ela (morreu). Se devemos seguir o exemplo de Cristo, nós também devemos ter zelo pela Igreja a ponto de buscar a sua “salvação” das garras da tradição e das doutrinas dos homens. Cristo morreu pela Igreja. Não creio que Ele morreria por algo sem importância (ou de pouca importância). O que você acha?
Por que Cristo se entregou pela Igreja? Para “que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (vs. 26-27).
Se a Igreja não tem tanta importância assim e, conseqüentemente, não merece que falemos e pensemos tanto nela, por que Cristo morreu por ela? Por que Seu propósito era santificá-la e apresentá-la a Si mesmo Igreja gloriosa? Se a condição da Igreja não tem muita importância, por que Ele morreu para santificá-la? Se a condição da Igreja não tem muita importância, por que Ele quer apresentá-la a Si mesmo como uma “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”?
Pense bem e você verá que não somente não é bíblico como não é inteligente afirmar que a Igreja não importante ou que não é importante pensar na Igreja. Se devemos seguir o exemplo de Cristo, então, devemos ter pela Igreja a mesma atitude que Ele teve.
Por si só, o que foi exposto acima deveria ser suficiente. Porém, eu quero dar mais algumas poucas razões.
2. Nós devemos importar-nos seriamente com a Igreja por causa de quem ela é.
“E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Efésios 1.22-23).
Note que o texto diz que a Igreja é o corpo de Cristo e a Sua plenitude. Algumas versões trazem “complemento” em lugar de plenitude. Seja como for, a idéia principal é que, pela soberana vontade de Deus e de acordo com os Seus propósitos, Cristo é complementado pela Igreja. Cristo Jesus se manifesta em plenitude com a Igreja, inseparavelmente unido a ela pelo Espírito Santo de Deus.
A Igreja não é pouca coisa aos olhos de Deus. Você acha que Ele a uniria a Seu Filho precioso e lhe daria uma posição de “complemento” de Cristo se ela fosse algo de menor importância?
A tradução da RA do texto “para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja” não é muito precisa. A NVI é mais precisa ao afirmar que Deus “o designou cabeça de todas as coisas para a igreja”. Esse “para a igreja” significa para o benefício da Igreja. Cristo domina sobre todas as coisas para o bem da Igreja. Ela é objeto de Seu amor e obra. Cristo morreu para satisfazer a justiça de Deus, sim, mas também para comprar a Igreja para Si mesmo (Atos 20.28; Efésios 5.25-27). E, assim também, Ele domina sobre todas as coisas para o bem de Seu corpo, a Igreja. Por causa de Sua união com Cristo, a Igreja herdará todas as coisas, para a glória de Deus Pai.
Agora, se a Igreja, que é o complemento de Cristo e o objeto de Sua Obra, não merece a maior consideração de nossa parte, eu não sei o que poderia receber! Não se interessar pelo que afeta a Igreja é agir como alguém que gosta de um amigo, mas não está nem aí para a esposa de seu amigo. Como você acha que o seu amigo se sentiria se você o tratasse bem, mas não à esposa dele?
3. Nós devemos nos importar com tudo relacionado à Igreja porque ela é a habitação de Deus.
“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Efésios 2.19-22).
Você gostaria de morar em um lugar cheio de baratas, ratos, aranhas e sujeira por todo o lado? Eu creio que não. Agora, será que Deus gostaria de habitar em um lugar nas mesmas condições? Certamente que não. Ora, a Igreja é o lugar de habitação de Deus e como tal deve ter uma condição que agrade a Deus. Portanto, nós devemos nos preocupar com tudo o que afeta a condição da Igreja, pois se a Igreja for afetada por algo, o lugar da habitação de Deus é afetado.
Por favor, saiba que ao falar da Igreja eu não estou falando de um ‘prédio’ ou de uma ‘denominação’. Eu estou falando daquilo que a Bíblia chama de ‘a Igreja de Deus’, aquela que é formada por todos aqueles que estão unidos a Cristo pela fé. É claro, essa Igreja se expressa por meio das diferentes assembléias ou congregações ou comunidades de cristãos (onde houver dois ou três reunidos a Cristo). Por isso, interessar-se pela Igreja é interessar-se pela condição de cada congregação local de filhos de Deus. Pois cada congregação local é parte da habitação de Deus e, portanto, onde Deus está e se manifesta.
Cada congregação local é edificada juntamente com todas as outras para ser a habitação de Deus no Espírito. Esse edifício espiritual que é a Igreja ainda está sendo edificado. E Deus está trabalhando entre todos os Seus filhos para ter a Igreja que Ele sempre planejou. Por isso nós devemos nos importar não somente com a nossa congregação local, mas também com todas as igrejas de Deus espalhadas pela terra.
Nenhuma igreja local está sendo edificada sozinha, mas juntamente com outras espalhadas pelo mundo está sendo formada como a morada de Deus no Espírito Santo. Isso torna ainda mais séria a nossa responsabilidade para com a condição atual das igrejas. Se Deus merece uma Casa digna de Seu nome, então, nós não devemos pensar que a condição da Igreja não tem nenhuma importância e que é melhor deixar cada pessoa viver do jeito que quiser.
É certo que não podemos obrigar ninguém a seguir toda a verdade da Palavra ou se importar com a Igreja, porém, se já temos entendimento sobre este assunto, nós somos responsáveis para que outros vejam a Igreja como Deus quer que ela seja. A Igreja de Deus está espalhada, dividida, fragmentada e danificada entre milhares de denominações e grupos cristãos. Porém, o plano de Deus é edificarmos em unidade e isso só pode ser alcançado se abandonarmos nossos próprios ‘reinos’ e ‘criações’ e voltarmos à simplicidade do plano e do padrão de Deus. E isso começa com uma reviravolta em nossa consideração pela Igreja.
4. Nós temos que nos importar com a Igreja porque Deus cumpre Seus propósitos por meio dela.
Paulo escreveu: “para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Efésios 3.10-11).
Deus estabeleceu um propósito em Cristo Jesus, ou seja, por meio Dele e em união com Ele. Por isso Ele foi dado como cabeça de todas as coisas e também como cabeça da Igreja. É por isso que a Igreja é o Seu complemento. Cristo e a Igreja são inseparáveis, portanto, tudo o que Deus cumpre em Cristo também o cumpre para a Igreja. Agora que a Igreja está unida a Cristo, tudo o que Deus planejou para Ele envolve a Igreja.
Nos planos de Deus, a Sua multiforme sabedoria se torna conhecida dos principados e potestades pela Igreja, ou seja, por meio da Igreja. O Corpo de Cristo, a Igreja, é o teatro onde Deus exige aos anjos e todos os poderes celestiais a Sua multiforme sabedoria, que é o glorioso evangelho de Jesus Cristo.
Você pode entender isso? Ou seja, que sem a Igreja Deus não exibirá a Sua multiforme sabedoria e glorificará a Si mesmo. Não é que Deus não possa fazer isso sem a Igreja, de maneira alguma! Mas foi o Seu propósito, a Sua determinação que a Igreja recebesse tamanha honra. O Evangelho de nosso Senhor, o evangelho da Bíblia, o evangelho da graça sem a justiça da lei e sem obras, deve ser exibido ao mundo e aos anjos por meio da Igreja.
Você não consegue ver que é honra sem igual ser chamado para cooperar com Deus em Seus propósitos, não apenas individualmente, porém, muito mais ainda, coletivamente, como Igreja? Se Deus cumpre Seus propósitos por meio da Igreja, será que devemos nos preocupar com seu estado, suas doutrinas, suas atividades?
5. Nós devemos nos interessar pela Igreja porque os dons e ministérios são dados à Igreja e para o benefício da Igreja.
Leia Efésios 4.7-16.
O versículo 8, citando Salmos 68.18, diz que Deus “deu dons aos homens”. A imagem que o Salmo apresenta e que Paulo relembra é aquela onde um conquistador distribui os espólios de seu triunfo como presentes entre o seu povo. Outra idéia inclui o esposo presenteando a Sua esposa com presentes como sinais de seu amor por ela.
Paulo ensina, desta maneira, que os dons ou ministérios fundamentais (apóstolos, profetas, evangelistas e pastores-mestres) são presentes que Cristo deu à Sua Igreja quando Ele ascendeu aos céus. Não provêm do merecimento humano, mas são presentes, ‘dons gratuitos’ do Cristo Ascenso à Sua Noiva, a Igreja.
Se a Igreja não merece toda a nossa consideração, então, os dons e ministérios perdem a sua importância. Se a condição da Igreja não merece a nossa atenção, então, por que Cristo deu dons à Igreja “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério”? Por que Cristo se preocuparia com a preparação dos santos para o ministério se a Igreja, a quem e para quem foram dados os dons, não tem muita importância em Seus planos?
Se você tem um dom e/ou ministério, ele existe por causa da Igreja. Seu dom e seu ministério não servem de nada se não for para a edificação da Igreja. O Espírito não lhe deu dons para seu benefício pessoal, ainda que este seja um subproduto dos dons. Você recebeu dons para edificar a Igreja. Mas, se a Igreja não tem muita importância, então, seus dons não servem para nada ou, na melhor das hipóteses, estão sendo usadas de maneira errada.
Faz parte de o ministério bíblico edificar a Igreja. É para isso que Cristo tem dado aqueles homens-dons de Efésios 4.11 à Igreja. Eles são necessários para que a Igreja não seja removida de Sua posição e condição em Cristo por todo vento de doutrina. Muitas pessoas, além de afirmarem que a Igreja não é um assunto muito importante, também insistem que ‘doutrina’ também não é muito importante. Se você pensa assim, por favor, leia novamente Efésios 4.11-14. Note a conexão: os dons ministeriais foram dados para preparar os santos (os crentes em Jesus) para a edificação do corpo; isso é necessário até que nos tornemos maduros em Cristo; essa maturidade é necessária para que ‘não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina’.
Importa pensar sobre a condição da Igreja hoje, assim como importa falar sobre doutrina. Se rejeitarmos as doutrinas bíblicas nós estaremos abertos aos “ventos de doutrinas”, às doutrinas de homens e até de demônios.
Se você é um dos dons de Efésios 4.11, você existe por causa de e para a Igreja. Você foi chamado para preparar a Igreja para a obra do ministério. Como você pode fazer isso sem considerar importante a condição da Igreja? A preparação não implica, necessariamente, mudar a condição da Igreja para melhor? Como é possível fazer isso sem considerar o estado atual dela?
Como um ministério para o Corpo de Cristo, o seu chamado é para levar os cristãos (que foram a Igreja, é claro) à maturidade em Cristo, de maneira que eles não sejam se apartem da graça de Cristo por qualquer vento de doutrina. Isso implica em levar o Crente a desfrutar de Cristo como seu tudo e no ensino das doutrinas bíblicas, de maneira que o crente tenha condições de identificar o erro e apegar-se à verdade.
Depois de tudo o que foi exposto, você ainda de pouca importância refletir sobre a condição da Igreja hoje? Pense bem!