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Archive for Janeiro, 2007

Não Está Escrito!

Se há uma coisa que eu tenho procurado evitar quando estou procurando expor um erro doutrinário ou moral ou ensinar uma verdade bíblica é não me basear naquilo que não está escrito. Eu tenho observado cada vez mais que muitas igrejas estão edificadas sobre aquilo que a Bíblia não diz. Eles partem do pressuposto de que, se a Bíblia não diz algo, então, Deus deve ser contra isso ou, na melhor das hipóteses, o cristão não tem permissão para praticá-lo.

Os grupos cristãos mais radicais costumam partir desse pressuposto para gerar doutrinas baseadas no que a Bíblia não diz. Ou, então, para provar que as práticas de outra igreja estão erradas, porque elas não estão na Bíblia. O resultado? O de sempre: mais confusão!

A verdade é que, se a Bíblia não menciona um determinado assunto, isso não significa que ela seja contra ou a favor. E, se o que a Bíblia não diz deve ser se tornar um mandamento muitas igrejas teriam (inclusive as mais radicais que usam tal argumento) que abandonar grande parte do que elas fazem! Afinal de contas, a Bíblia não fala nada sobre o uso de editoras, gravadoras, CD e computador na obra de Deus. Ela não fala sobre edifícios de igrejas ou de muitos dos modernos sistemas de coleta de dinheiro. A Bíblia não fala sobre CNPJ, nomes de igrejas, seminários ou institutos bíblicos. A Bíblia não fala nada sobre ‘departamentos’ ou ‘ministérios’ de crianças, jovens ou casais. A Bíblia não define quantos dias a igreja deve se reunir por semana, nem os horários e nem por quanto tempo. E daí por diante!

Eu penso que não podemos deduzir rapidamente que todas essas coisas sejam erradas somente porque não são mencionadas nas Escrituras. Pois o problema não está no fato de não serem mencionadas nas Escrituras, mas sim, se elas levam os crentes a negligenciarem, invalidarem ou rejeitarem
o que a Bíblia diz
! Ou seja, o problema não está em não serem mencionadas na Bíblia, mas se vão contra ou não ao que já está revelado nas Escrituras.

Jesus falou sobre isso em Marcos 7.8-13 quando Ele expôs a hipocrisia dos fariseus e o apego deles às tradições humanas. Jesus não edificou o Seu ensino no que as Escrituras do Antigo Testamento não diziam, mas sim no que elas diziam. Ele cita Isaías e Moisés nos versículos 6-7 e 10. Ele diz que as tradições dos fariseus não passavam de preceitos de homens (não estavam nas Escrituras), mas o problema real não era esse. O problema era que as tradições dos homens estavam levando-os a negligenciarem, rejeitarem e invalidarem a Palavra de Deus.

Algumas pessoas falam muito contra certas tradições de igrejas… E sou um delas! Porém, eu não sou contra qualquer tipo de tradição em si mesma. Há boas tradições nas igrejas cristãs como, por exemplo, orar de joelhos antes de iniciar uma reunião da igreja ou durante a reunião. Se uma igreja quer seguir estas tradições, por mim tudo bem. Mas se ela disser que esta é a única maneira certa de orar ou que ela tem algo de especial que outras posturas de oração não têm, aí eu não posso aceitar tal ensinamento. Tal doutrina é humana e invalida o que a Bíblia ensina sobre o poder da oração, o qual não se encontra na postura usada, mas sim na fé sincera como de uma criança no caráter e no poder de Deus. A Bíblia diz que a “oração de fé salvará o enfermo” (Tiago 5.15), não a oração de joelhos. Ela diz que tudo quanto pedirmos em oração, com fé inabalável, nós receberemos (Marcos 11.24) e não somente aquilo que pedirmos de joelhos.

Você percebe? Não é a tradição em si mesma que é errada. Não há nada de errado em alguém orar de joelhos, pois a Bíblia mostra o exemplo de diversas pessoas piedosas que oraram de joelhos. Jesus orou de joelhos ou prostrado ao chão. O problema é quando a tradição se torna algo que escraviza o crente e o leva a rejeitar o que a Bíblia ensina em sua totalidade. Assim, vamos colocar as coisas nos lugares certos!

A melhor opção para edificarmos vidas e igrejas bíblicas é edificarmos sobre o que a Bíblia ensina e não sobre o que ela não ensina. A própria Escritura nos ensina isso. Ao longo da Bíblia nós lemos que “assim diz o Senhor” (405 vezes nas Escrituras). Jesus ensinava dizendo “em verdade, em verdade voz digo” (25 vezes só no Evangelho de João). Paulo disse “como, por toda parte, ensino em cada igreja” (1 Coríntios 4.17).

As igrejas estão confusas e ensinam coisas erradas porque elas edificam muito sobre o que não está escrito na Bíblia, mas não sobre o que está nas Escrituras. Na verdade, na maioria das vezes, as igrejas que usam o argumento de “não está na Bíblia”, elas mesmas fazem muitas coisas que não estão na Bíblia! Porém, escolhem somente aquelas que mais lhes agradam para condenar os outros. Elas são como cegos que guiam outros cegos; como alguém que tem uma trave no olho, mas tenta tirar o argueiro no olho de outra pessoa. Jesus disse que tais pessoas são hipócritas. E nós sabemos que isso é verdade!

Não é necessariamente errado ensinar algo que não está na Bíblia. Porém, qual é ênfase? Devemos deixar de ensinar algo proveitoso somente porque não está na Bíblia? Não! Devemos ser honestos com as pessoas e dizermos que se algo não está na Bíblia não significa necessariamente que seja ruim; pode ser e pode não ser.

Mas, como saber? Baseando-se no que a Bíblia diz! Este é o único caminho! Se a Bíblia diz que é pecado, então, é pecado. Se ela não diz, então, pode ser pecado ou não. Assim, não julguemos aos outros. Deixemos que o Senhor dê o entendimento correto sobre isso a nós mesmos e/ou aos outros. Usemos os princípios corretos da interpretação gramático-histórica e chegaremos a uma interpretação mais acurada de qualquer coisa que estudarmos nas Escrituras.

Então, quando analisarmos se algo é da vontade de Deus ou não, nós não devemos apenas pensar em termos de “isso está ou não está na Bíblia”. Uma coisa pode não estar na Bíblia e ser boa ou má. Devemos, portanto, nos perguntar se crermos em ou se praticarmos tal coisa, isso nos levará a invalidar, negligenciar ou rejeitar o que já está registrada na Palavra de Deus.

O fato de a Bíblia não mencionar ou não ter um mandamento ou conselho sobre algo, não significa que isso seja aprovado por Deus (ou desaprovado) ou que nós deveríamos praticá-lo. A Bíblia não proíbe diretamente o uso do cigarro. Portanto, não podemos afirmar diretamente pela Bíblia que fumar é pecado. Porém, isso não significa, de maneira alguma, que é fumar seja uma boa coisa para se fazer ou que isso tem a aprovação de Deus. A ciência já mostrou os efeitos letais do cigarro e somente um tolo se deixaria seduzir por ele. Qualquer pessoa que usar o seu bom senso rejeitará o cigarro, independente de tal pessoa ser cristã ou não. Mas, ainda assim, a Bíblia não diz que fumar é pecado.

No entanto, ela diz que devemos glorificar a Deus com o nosso corpo (1 Coríntios 6.19-20), que devemos fazer tudo para a glória de Deus (1 Coríntios 10.31), que não devemos nos deixar controlar por qualquer coisa (não esqueçamos que o cigarro, juntamente com outras drogas, tem um efeito viciador) (1 Coríntios 6.12) e que devemos nos abster de toda forma do mal (1 Tessalonicenses 5.22), entre outras coisas. Então, mesmo que a Bíblia não diga nada explícito sobre o uso do cigarro, por exemplo, eu devo verificar se ela diz alguma coisa que me ajude a tomar uma decisão a respeito – sem esquecer que o bom senso, os princípios éticos, as leis da boa saúde e a civilidade também devem ser considerados. Dessa maneira, a Bíblia não precisa proibir explicitamente o cigarro para eu não usá-lo. O que ela diz sobre como eu devo tratar o meu corpo, mesmo que isso não fale diretamente sobre o cigarro, é suficiente para que eu não queira nada com essa droga.

Agir assim evita o legalismo, pois se um fumante recém convertido recair na tentação de fumar ou não deixar imediatamente de fumar, por exemplo, nós não o trataremos de maneira estranha, não o criticaremos, julgaremos ou condenaremos. Por outro lado, evita também a libertinagem, pois não nos permitiremos fazer (ou deixar de fazer) algo somente porque não somos explicitamente proibidos na Bíblia. Dessa maneira, nós poderemos viver equilibradamente, seja como igreja, família ou pessoa.

Edificar sobre o que está escrito é muito importante para termos uma igreja – assim como a nossa própria vida – livre do legalismo e da libertinagem. Se quisermos vencer o pecado real e brilharmos como luzeiros de Cristo neste mundo escuro, nós temos que nos vestir com a verdade da Palavra, com o que ela diz e não com o que ela não diz. Edificar sobre o que a Bíblia não diz é edificar sobre a areia. Edificar sobre o que ela diz é edificar sobre a rocha.

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